MULHERES DE ANGOLA

José Chabert
Setembro de 2003

Nota Prévia

Quero deixar desde já bem expresso e sublinhado que abordo os assuntos de antropologia e história com amadorismo, o que não me retira curiosidade e paixão por estas matérias, sobretudo pelas coisas da Mãe África, com especial acuidade para as coisas acontecidas no vasto espaço geográfico que constitui o país a que se chama Angola . Devo, no entanto, confessar que esta condição de amador é cómoda, pois permite-me explorar apaixonantes trilhos sem a castradora obrigatoriedade de um rigorismo académico imbecis, que só serve ao gosto duvidoso dos ratos de biblioteca, entre os quais não incluo os verdadeiros e honestos investigadores como Luciano Cordeiro e tantos outros. Posso e permito-me, assim, abordar factos, datas e personagens, com mais ou menos rigor, tendo apenas como muleta a audácia que a ignorância faculta e promove, sem melindrar os académicos de duvidoso rigorismo.

Cabe aqui prevenir também que, intencionalmente, os milhares de leitores que vão ler estas páginas, detectarão diferentes estilos narrativos para descrever a história de cada uma das personagens seleccionadas. A prosa virá em função do que sentir ter sido a personalidade de cada uma das heroinas, com a formalidade ou informalidade a que me forem levando, pelos seus feitos ou estilo de vida, tanto mais que, neste momento, ainda não se sabe quais ou quantos serão os nomes incluídos. De outra forma seria fastidioso. Sendo este um assunto tão pouco tratado na bibliografia africana ou sobre África , até eu próprio me espanto por me esparramar numa aventura destas.

Contar estórias não é fácil. Só os dotados conseguem prender a atenção dos seus semelhante, contando seja o que for, sobre qualquer assunto, a assembleias mais ou menos numerosas, mais ou menos identificadas com o tema explanado, em sessões mais ou menos longas, com maior ou menos recheio de pormenores. Tenho ouvido muitos contadores de estórias ao longo da minha vida, mas só alguns, de facto, são capazes de tudo isto, de prender a atenção, de fazer ansiar que a estória não acabe.

Mas agora, em vez de contar, pus-me a escrever e escrever estórias é muito mais complicado, porque a palavra escrita não tem inflexões, a pontuação não consegue reproduzir as pausas de que os contadores tanto partido tiram. Pausas que comprovam a musicalidade do silêncio, que predispõem para o que se vai seguir, o que vem depois.

Este tema – MULHERES DE ANGOLA – é muito menos fácil de abordar do que parecia quando me deixei enlear por ele. Desde logo porque sempre houve em Angola mulheres merecedoras de, pelo menos, uma referência para a posteridade. Por outro lado, a par de nomes e factos históricos muito bem tratados, descritos e preservados, existem outros que apenas nos chegam por uma ou outra referência, nesta ou naquela lenda e, outros ainda, que ficaram de tal forma esbatidos na noite dos tempos, amalgamados na oralicultura das suas façanhas, que é preciso mais do que mera curiosidade para os desenterrar, levar ao carbono 14, retocar e polir, antes de serem colocados na vitrina de um qualquer museu do conhecimento geral. Surgem-me, da noite dos tempos, nomes femininos em relatos tão magros e imprecisos, de lampejos tão fugazes, que só é possível utilizá-los como correia transmissora ou como suporte fantasioso dos factos históricos que lhes estão adjacentes.

Além destas mulheres históricas , há o conhecimento de outras de que não se fala, mulheres que marcaram algumas gerações de angolanos, independentemente da sua capacidade económica ou status social, mas que são assunto tabu na hipocrisia das relações humanas da cultura judaico- -cristã. E é evidente que não cabem aqui destrinças rácicas, pois estas eram naturalmente minimizadas e deixadas para outras circunstâncias, o que não será aqui dissecado. Não fazia sentido incluir, neste reduzido rol de nomes, qualquer referência à Marabunta de Luanda (poucos lhe conheciam o nome de baptismo), à Vicência do Lubango (Sá da Bandeira), à Esmeralda ou à Maria do Atlético, do Huambo (Nova Lisboa), tal como a muitas das mulheres da Canata e do BO. Fazem parte de outras estórias ainda por contar, embora na nossa modestíssima opinião devessem ser colocadas na história social de uma Angola que se desenvolvia a um índice de 18,5% ao ano e, portanto, plena de virtudes e de defeitos que conviviam aceitavelmente entre eles e que certamente teriam evoluído de forma mais harmoniosa, não fossem os interesses económicos e políticos das grandes potências mundiais.

Mas o assunto agora é, tão só, mulheres com História, o que já não é pouco.

José H. Chabert/Setembro de 2003

Nginga

(in Senhores do Sol e do Vento – histórias verídicas de portugueses, angolanos e outros africanos – José Bento Duarte, 1999 [modificado]

Nginga M'bandi de Angola ou, como é conhecida pelos Portugueses, a Rainha Ginga (cerca de 1581 a 1663), suscitou lendas, estórias e muita literatura, não só em Angola como por quase toda a África. O poder das suas lendas foi tanto, que a marca de um pé nas rochas de Pungu Andongo (Mpungo-a-ndongo), junto do Kwanza, ficou conhecida como a pegada da Rainha Ginga, ainda que a referida marca seja pré-histórica e se deva a um qualquer fenómeno ocorrido durante a formação daquele afloramento rochoso.

Confundindo o título “ n'gola ” do mais alto governante do N'Dongo, com o nome do país, os portugueses chamaram Angola àquela vasta região, nome que se generalizou e perdura até aos nossos dias.

 

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(1) – A literatura científica internacional adopta, também, a grafia Nzinga, Zinga ou Jinga

Os primeiros contactos entre o N'Dongo e os europeus foram muito amistosos. O n'gola Kiluandji aceitou de bom grado o comércio, mas não queria o seu povo perturbado com as conversões em massa ao cristianismo, como os portugueses tinham feito no vizinho Kongo. Nos primeiros anos do século XVI, o reino do N'Dongo, com a capital em Mbanza-ia-Caculo, floresceu com o comércio de escravos e Kiluandji aproveitou esta oportunidade para se livrar dos prisioneiros de guerra, criminosos e outros indesejáveis que coabitavam com o seu povo, sem ter de escravizar as suas próprias gentes. No entanto, como já se verificara no reino do Kongo, as exigências da colónia do Brasil¹ com cada vez maiores e urgentes necessidades de mão-de-obra, passou a exercer fortes pressões sobre o governador de Luanda, para o envio de mais escravos. O governador, Paulo Dias de Novais², enviado pelo reizinho Sebastião, encarregou os padres jesuítas de ampliarem o comércio, dedicando em exclusivo a sua atenção à busca das lendárias minas de prata de Cambambe, que desde sempre tinham alimentado os seus sonhos e os dos sertanejos e do Reino de Portugal.

Este comércio de escravos e marfim contribuiu para o aumento da riqueza e dos poderes do n'gola Kiluandji e permitiu-lhe a conquista de várias regiões contíguas às suas fronteiras, que nesse tempo eram mais ou menos delimitadas pelos rios Dande, Lucala e Kwanza. Esta expansão territorial levou, no entanto, ao corte de relações com os portugueses e, posteriormente, conduziu em 1581, aliado ao reino do Kongo, a um conflito armado contra os europeus, o qual durou cerca de cem anos. Para felicidade dos m'bundu, o n'gola Kiluandji era um bom guerreiro e um óptimo estratega que conseguiu derrotar os seus inimigos. Embora os portugueses tivessem capacidade para arrasar qualquer dos opositores da região, encontravam-se debilitados pele ocupação espanhola da sua metrópole, o que fazia com que só podessem contar com o apoio vindo do Brasil, cujas guarnições passavam, também elas, por dificuldades com as incursões de várias potências europeias, nomeadamente holandesas dos Estados Gerais, união dos Países Baixos não sujeitos ao domínio de Espanha.

Foi durante as primeiras batalhas desta guerra que nasceu Nginga, filha de Kiluandji, pai de cinco filhos – dois rapazes e três raparigas – o mais velho dos quais era considerado ilegítimo. Destes cinco filhos, Nginga era quem mais se assemelhava ao pai, embora os primeiros anos de vida não a destinguissem de qualquer outra mulher do seu povo: cresceu, cumpriu os rituais iniciáticos, foi casada e teve um filho. No entanto, veio a revelar-se como o mais alto valor político de que reza a história dos potentados de Angola.

Por volta de 1618 tiveram início uma série de convulsões que abalaram a estrutura social e política do reino N'Dongo, pois Kiluandji, apesar dos seus êxitos como guerreiro, era um tirano déspota, de comportamento caprichoso que desagradava ao povo, o que acabou por conduzir à sua deposição e envenenamento. Depois de ter sido executado, o seu filho mais velho, M'Bandi – o ilegítimo – auto nomeou-se n'gola. M'Bandi procurou pôr termo a toda a oposição próxima ou remota e para isso mandou matar o seu irmão cassula e o sobrinho, filho de Nginga, bem como proceder à esterilização das suas três irmãs. No prosseguimento desta política preventiva, eliminou também todos os chefes que tinham apoiado a sua ascensão ao trono.

 

Perante a crueldade do seu meio-irmão, Nginga abandonou Kabassa na companhia do marido e das suas irmãs Funji e Kambo, fixando-se na região vizinha de Matamba, situada entre as margens esquerdas do Kwango e do Lucala.

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•  – Em 1570, existiam no Brasil 101 engenhos de açucar; nos anos subsequentes este número aumentou até se contarem mais de um milhar – in Apontamentos sobre a Ocupação e Início do Estabelecimento dos Portugueses no Congo, Angola e Benguela – Alfredo de Albuquerque Felner – 1933.

•  – Neto do navegador Bartolomeu Dias, que foi o primeiro a chegar ao Cabo das Tormentas, hoje conhecido pelo Cabo da Boa Esperança, o extremo austral de África.

 


Se o n'gola M'Bandi tivesse reservado a sua agressividade para os portugueses, em vez de a despender com a sua própria família, talvez Nginga tivesse aceite a situação, mas o n'gola além de cruel mostrava-se também uma criatura fraca de espírito. Com o avanço dos portugueses que não demoraram a reconquistar as regiões que tinham perdido a favor de seu pai, M'Bandi fugiu, deixando toda a parte central do reino aos europeus.

(Gravura reproduzida da Rélation Historique de l'Ethiopie Occidentale, do P. Labat – Paris, 1732)

Tendo-se refugiado nas ilhas do rio Kwanza, pediu à irmã que o auxiliasse a negociar um tratado com os portugueses, acreditando que a sua única esperança residia no estabelecimento da paz e na remoção do presídio de Mbaka, no rio Luinha, a apenas um dia de jornada da sua capital. A posição de Nginga não era fácil. Por um lado o assassínio do seu filho e a necessidade de se salvar a si e às suas irmãs do despotismo do n'gola, por outro, com a fibra herdada de seu pai, o desejo de preservar o povo e o reino da influência de estranhos.

Apesar da fraca posição em que se colocara o seu irmão, que fizera cedências ao ponto dos portugueses terem nomeado outro n'gola, pôs de lado as divergências familiares e partir, em 1622, com o seu séquito para Luanda.

Nginga era uma diplomata nata e o seu encontro com o governador João Correia de Sousa tornou-se uma lenda e um marco na história das confrontações diplomáticas entre a África e a Europa. A princesa organizou a sua chegada ao palácio do governador de tal maneira, que não restassem dúvidas de que se tratava de uma ocasião «real» e não da simples chegada de um mensageiro de um reino conquistado. Fez-se anteceder por numeroso grupo de músicos com flautas e charamelas e escoltar pelas suas damas de companhia mais um séquito de escravas.

Foi quando entrou na sala de audiências, que ocorreu o facto que a deixou tão famosa para a história, registado para a posteridade, uns anos depois, por um artista francês. Na sala, apesar da profusão de confortáveis almofadas, não havia mais do que uma cadeira: a do governador. Decidida a não ficar em desvantagem, Nginga M'Bandi chamou uma das acompanhantes, mandou-a abaixar e sentou-se-lhe nas costas transformadas em cadeira humana. Quando o governador entrou, verificou que tinha sido ultrapassado e durante a audiência não conseguiu a posição de vantagem com que, inicialmente, contara.

Durante os anos de guerra, os do N'Dongo tinham feito alguns prisioneiros portugueses. Quando Correia de Sousa exigiu a devolução da totalidade destes homens, Nginga concordou sorrindo e disse que todos seriam entregues quando todos os do seu povo levados para o Brasil também o fossem. Como era uma condição impossível de satisfazer, e depois de prolongada discussão, alcançou-se uma solução, que era o primordial e definitivo objectivo de Nginga – um tratado no qual os portugueses reconheciam o n'gola M'Bandi como soberano do reino independente de N'Dongo e retiravam as suas tropas do forte Mbaka. Em troca, o n'gola devolvia os prisioneiros, dava exclusividade do seu comércio de escravos aos portugueses e colaborava no esforço de combate aos jaga¹, um grupo migratório que desde 1567 estava a devastar o Kongo.

Era um tratado equitativo e Nginga aceitou-o com alguma satisfação. Depois de se levantar da sua “cadeira”, abandonou-a no local, alegando que a sua dignidade não lhe permitia servir-se duas vezes do mesmo acento.

Por razões não muito claras mas que se prendiam com as suas altas capacidades diplomáticas e, provavelmente, para alcançar um acordo particular que desse alguma complementaridade ao tratado, Nginga permaneceu em Luanda para receber ensinamentos da fé cristã, numa atitude mais política do que religiosa. Não restam dúvidas de que os padres jesuítas tinham interesses no comércio de escravos e tratavam dele com empenho, além de procederem a baptismos em massa junto ao cais, borrifando com água benta longas filas de cativos que recebiam um novo nome cristão, precisamente antes de serem amontoados no porão das naus, encarregaram-se do cerimonial para o baptismo da princesa.

Nginga tinha consciência que a qualidade de aliada “cristã” de Portugal, lhe dava a ela e a todo o seu povo, direito a um tratamento especial. O seu baptismo na Sé de Luanda deve ter sido uma cerimónia de grande pompa, tendo escolhido o nome cristão de D. Ana de Sousa, muito certamente para fortalecer os laços com o governador.

•  Os Jaga ou Yaka , foram um grupo problemático, guerreiros devastadores, em permanente migração, de agressividade extrema e práticas canibais, oriundos do primeiro lago do rio Nilo. Alguns autores não os consideram um grupo étnico, mas uma amálgama de fugitivos de várias tribos (criminosos, escravos fugidos e elementos expulsos dos seus clãs). Escolhiam os seus chefes pela crueldade que demonstravam em combate, não se casavam e roubavam crianças para dar continuidade ao seu grupo, que vivia permanentemente em acampamentos de guerra. Foram um sério problema para a migração de outros povos por toda uma vasta região, desde a Floresta Equatorial até às margens do Zambeze.

Depois de regressar a N'Dongo, o seu primeiro contacto com o n'gola foi desastroso. Correia de Sousa tinha prometido um padre para o reino do N'Dongo, mas quando este chegou, verificou-se tratar-se de um negro convertido. Os m'bundo não estavam interessados na religião dos europeus, queriam era contacto com os portugueses e o que pretendiam era um padre branco. Por outro lado, Nginga não tardou a verificar que outros dos seus esforços tinham sido em vão. As pressões de Lisboa, Brasil e São Tomé para que fosse aumentado o comércio de escravos não deixavam margem para que o governador, apesar das suas intenções, cumprisse a sua parte do combinado e, portanto, era previsível que as suas terras também não fossem devolvidas.

Na esperança de fazer respeitar o tratado, Nginga partiu de novo para Luanda. O governador era então Simão Mascarenhas, pois Correia de Sousa entrara, entretanto, em conflito com os jesuítas ao querer imprimir alguma moderação ao trafego de escravos, e foi chamado a Lisboa.

As conversações mostraram que não havia hipótese de chegar a qualquer acordo com os portugueses, e Nginga regressou para prevenir o mano que devia preparar-se para a luta, mas o n'gola M'Bandi não tinha essas intenções.

Tornava-se cada vez mais evidente que a irmã tinha herdado o espírito combativo do pai e o povo voltava-se agora para ela, na esperança de que assumisse a liderança que o seu irmão era incapaz de demonstrar.

Na tentativa de antecipar uma provável jogada que levasse à sua deposição, M'Bandi partiu para Luanda onde se ajoelhou frente ao governador Mascarenhas, a quem solicitou protecção e ajuda para reforçar a sua autoridade junto do seu próprio povo.

Foi então que Nginga se mostrou determinada a afastar o fraco mano e teve um rasgo político genial – fez aliança com os jaga, e conseguiu transformar em exército um grupo de incontroláveis criminosos. A primeira medida foi mandar matar o irmão assim que este regressou de Luanda e encarregar o chefe jaga, Kaza Kangola, da captura e eliminação do filho do n'gola.

Foi a partir destes acontecimentos e de uma série de mortes subsequentes, que começou a avolumar-se a lenda de Nginga, a rainha canibal. Afirma-se que ela comeu o fígado do irmão morto, na cerimónia em que, aos 45 anos, se fez aclamar n'gola¹, mas na verdade ela fora obrigada a estabelecer aliança com os jaga e, com isso, a aceitar e a conviver com as suas práticas, para combater os portugueses que, entretanto, tinham ocupado o reino do N'Dongo tornando-o um estado vassalo, chefiado por um seu parente, Airi Kiluandji, n'gola de conveniência.

Apesar desta situação, o povo demonstrou que desejava abandonar as suas terras e seguir Nginga, que revelava uma acentuada capacidade de liderança. A sua táctica para combater os portugueses, mais bem armados embora menos numerosos, foi seguida por muitos chefes africanos até mesmo no século XX – transformou o seu povo num exército de guerrilha, manteve-o em constante movimento, evitou os combates frontais que podiam vir a ser desastrosos, só atacava o inimigo em condições favoráveis e onde ele menos esperava. Utilizava, como quartel general a ilha Mapolo e o conjunto das ilhas Kindonga, no Kwanza², para montar os quilombos, as suas bases de operações, embora tivesse que fugir dos portugueses muitas vezes.

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•  – Passou a exigir o tratamento no masculino - de rei de Angola - título político dos reis do N'Dongo.

•  – As pedras de Mpungo-a-Ndongo e o grupo de ilhas de Kindonga, no Kwanza acima de Massangano, eram considerados locais sagrados do reino de Nginga. Os súbditos temiam-na e aplidavam-na de «Manine».

Em finais de 1629 princípios de 1630, prometeu casar com o chefe jaga, consolidando a aliança com este povo, o que lhe permitiu deslocar-se para Matamba onde derrotou a rainha local, criando uma nova região para si e para os m'bundu. Nos cinco anos que se seguiram dedicou-se a construir um país livre de quaisquer tribalismos, dominado por um único povo resultante da fusão dos m'bundu com todos os jaga que quisessem estabelecer-se, bem como com os escravos que escapassem dos portugueses ou das etnias vizinhas e começou a fustigar os acampamentos de Airi, o n'gola de conveniência. Entretanto, o chefe jaga ataca e saqueia a capital de Matamba e Nginga rompe com ele, fragilizando a sua posição, não obstante as dificuldades enfrentadas também pelos portugueses, dominados na sua metrópole pela Coroa Espanhola e pressionados no terreno pelos holandeses (também por ávidos ingleses e franceses), desejosos de ampliar a sua participação no comércio africano de escravos, fundamentais para a sobrevivência dos engenhos e plantações de açucar de Pernambuco, no Nordeste brasileiro que entretanto tinham ocupado.

Com os holandeses a efectuarem permanentes incursões à costa e não querendo ter um inimigo no interior, os portugueses desenterraram o tratado com Nginga e, em 1639, enviaram-lhe emissários com a incumbência de o refazer. Os resultados foram nulos e Nginga continuou a atacar as suas cidades, sempre que podia.

Face ao êxito desta resistência e aos contínuos avanços dos holandeses, Garcia II, manikongo do Kongo, instigado pelos neerlandeses decide entrar na luta, passando os portugueses a contar com três inimigos. Em 1641 foi formado um exército para eliminar o Kongo e preparado um plano para invadir Matamba, mas era demasiado tarde. Em Agosto, os holandeses tomaram Luanda e os portugueses refugiaram-se no interior, em Massangano, resistindo com o contributo das guarnições de Muxima, Kambambi e Ambaca, reforçados mais tarde por duas companhias comandadas pelo capitão-mor Bento Banha Cardoso, militar dotado e conhecedor do terreno.

Em 1645, Nginga decidiu jogar tudo por tudo e cercou os portugueses em Massangano, mas não contou com a força do desespero dos defensores que, em Janeiro do ano seguinte, conseguiram não só romper o cerco, como atacar o seu acampamento, matando mais de duas mil pessoas e aprisionando as suas irmãs, Funji (Engrácia) e Kambo (Bárbara).

Com a inesperada chegada de reforços comandados pelo fidalgo brasileiro Salvador Correia de Sá e Benevides¹, que fundeou na baia de Luanda em Agosto de 1648, os portugueses reconquistam a cidade mas, durante os quatro anos seguintes, Nginga fez tudo para lhes minar a resistência, ainda que constantemente repelida pelos canhões e espingardas do inimigo. Pouco depois Nginga volta à luta com o apoio dos holandeses e reforços do Kongo, ganhando diversas batalhas menores. Podia mesmo ter tido resultados mais frutuosos, se os jaga, irritados com a perda de rendimentos provenientes do comércio de escravos, não tivessem escolhido esse preciso momento para desfazerem a aliança.

Conhecem-se alguns pormenores da vida de Nginga neste período², graças aos despachos do capitão Fuller, adido militar holandês que a acompanhava, descrevendo como todos se ajoelhavam e beijavam o chão quando ela se aproximava.

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(1) – Governador do Rio de Janeiro, que em 1648 fundeou frente a Luanda, com uma frota de 15 navios e 1400 homens, armada e equipada com financiamentos da população brasileira e do seu próprio bolso.

(2) – Nzinga ainda conseguiu incomodar os portugueses e estes foram quase derrotados em 1648, sendo salvos pelos reforços enviados do Rio de Janeiro. Os seus aliados passaram à defensiva, mas ela lutou ao lado dos calvinistas holandeses até à derrota definitiva destes, quando Correia de Sá lhes ofereceu uma capitulação honrosa. No entanto, apesar do cavalheirismo, foram obrigados a abandonar o território embarcando no preciso lugar em que, em 1641, tinham posto os pés em terra, para que “a heresia saísse daquele reino pelos mesmos passos por onde havia entrado a infeccioná-lo. As posições de Benguela e São Tomé foram igualmente recuperadas. Quanto a Pernambuco, privados da mão-de-obra e sob frequentes levantamentos da população brasileira, os holandeses viram-se obrigados à evacuação em 1654.

Como em África, de um modo geral, as mulheres são desprovidas de poder, Nginga vestia-se como um homem e mantinha um harém de rapazes que se vestiam de mulher e constituíam as suas “esposas”. Embora contasse com um conselho de sekulus , afirma Fuller¹ que era ela a estratega e, apesar de ter mais de sessenta anos, comandava directamente os seus guerreiros.

Com a derrota dos holandeses, o manikongo Garcia II rompeu a aliança e prestou vassalagem aos portugueses. Nginga retirou-se para as montanhas de Matamba e continuou a luta como sempre o tinha feito, servindo-se de acções de guerrilha, refugiando-se depois da resposta do inimigo, passando anos difíceis. D. Engrácia foi executada pelos portugueses e Kambo (D. Bárbara) continuava na prisão.

Embora nunca tenha conseguido recuperar N'Dongo, Matamba tornou-se uma terra permanente, onde os jaga abandonaram o canibalismo e se uniram aos m'bundu, formando uma nova nação.

Pronta a servir-se de todos os meios para assegurar a existência do novo estado e instigada pelos frades capuchinho, a idosa rainha decidiu aceitar uma oferta dos portugueses para o estabelecimento da paz. Nginga concordou em ser rebaptizada e em troca de cento e trinta escravos libertou a sua irmã, depois de uma década de cativeiro. Com setenta e cinco anos de idade, decidiu finalmente “assentar”. Desmantelou o harém e casou formalmente com uma das suas “esposas”. Numa atitude impar entre mulheres dirigentes africanas, decidiu que seria sucedida por outra mulher, a sua irmã, que previamente casou com D. António, o general do seu exército.

Finalmente segura, Nginga aprofundou os seus laços com os portugueses, estabeleceu correspondência com o Papa e, quando recebeu a resposta, mandou que se fizessem grandes festejos a comemorar o acontecimento, tendo participado deles embora já contasse mais de oitenta anos. Vestiu-se então de mulher, ainda que como amazona.

Morreu com oitenta e um anos de idade, a 17 de Dezembro de 1663, mantendo absoluta lucidez até à sua derradeira hora. De acordo com as suas instruções, foi amortalhada num hábito de capuchinho, e a nação que ela criou sobreviveu-lhe a si e à sua irmã Kambo até ao século XIX, quando foi iniciado o sistema colonial.

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(1) – O capitão Fuller, além de oficial do exército da República das Sete Províncias Unidas, independente dos Países Baixos do Sul e, portanto, livre da dominação espanhola, servia também os interesses da Companhia das Índias Ocidentais Holandesas (WIC).

Muam Poenha

De fronteiras e origens imprecisas o N'Goio foi um reino que, entre os finais do século XV e o princípio do século XVI, se localizava sensivelmente na região Kapinda ou Kabinda, que constitui hoje o território de Cabinda. A sua história é difícil de reconstituir, porque dela não sobrou mais do que interpretações de alguns registos e restos esfumados da tradição oral, dos quais saiu este delicioso conto:

O antigo reino do Kongo era tão grande que ninguém conhecia os seus limites, mas sabia-se que era todo revestido por grandes florestas, que tinha um rio grande como o mar e, que apesar do seu povo ser muito numeroso, havia sítios onde nunca ninguém tinha ido. O poderoso Muenekongo ou Manikongo (rei, senhor do Kongo) vivia com a corte na capital, São Salvador do Kongo, M'Banji-a-Ekongo ou Mbanza Kongo, como há muitos, muitos anos se chamou. Este manikongo tinha uma irmã a quem muito amava, de nome Muam Poenha. A princesa era de uma beleza fora do comum numa terra de mulheres belas. De formas esculturais e olhos doces, tinha dentes muito brancos e húmidos como as conchas do rio e uma farta cabeleira com penteados trabalhados e enfeites raros.

Certo dia passou pela cidade um caçador, exímio tocador de Kisandje ¹, que arrancava ao instrumento melodias tão extraordinárias que toda a gente pasmava de admiração ao ouvi-las. Além de ser o mais era alto, forte e esbelto dos moços, tinha olhos doces como os da princesa.

Muam Poenha deixou-se enfeitiçar e perdeu-se de amores pelo caçador. Não obstante a sua alta linhagem, perdeu o sentido das conveniências e, pela calada da noite, corria para as discretas sombras dos muxitos ² para se entregar aos seus amores proibidos.

Deste amor nasceram três gémeos – duas mocinhas, Lilô e Silô, e um rapaz de nome Tumba - o que provocou um indiscritível escândalo na corte que, como era inevitável, conduziu à prisão e imediata execução do caçador/músico.

Quanto à princesa, embora o rei por muito lhe querer, estivesse inclinado ao perdão, não pode deixar de ouvir os seus conselheiros que, irredutíveis e persuasivos, lhe lembraram a vingança dos deuses, com secas e calamidades, acabando o pesaroso rei por poupar a vida à irmã, sim, mas a troco da expulsão ad iternum dos seus domínios. Muam Poenha juntou os filhos, alguns familiares e as suas bicuatas ³ e pôs-se a caminho do mar distante, que ela nunca tinha visto. Andou... andou, triste e amargurada com saudades do seu amante, com saudades da terra que deixara, em constante temor pelos bichos ferozes que vinham do mato e fustigada pelos gentes por quem passava, que a apedrejavam e lhe recusavam abrigo.

Nuns caminhos se perdeu, noutros caiu. Adoeceu, curou-se, e com tanto penar foi avançando. Andou... andou, mas tão lentamente que só ao fim de quinze anos chegou perto de um rio, já perto do mar, a um lugar que diziam chamar-se Baía do Sonho (Soyo), nas terras do rei do Sonho, parente e vassalo do rei do Kongo. Alguém da comitiva lhe contou que o rio sempre se chamara N'zari, mas tinham vindo uns brancos em grandes barcos, que lhe chamaram rio do Padrão.

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(1) – também designado, entre os Kiocos por tchissanje, é um instrumento musical de que existem vários modelos de afinação grave e aguda, providos ou não de caixas de ressonância, quer no próprio instrumento, quer por aplicação de uma cabaça aberta no topo. Os sons são tirados pelo dedilhar de tiras de metal ou de bordão.

(2) – aglomerado de árvores nas margens dos rios ou dos ribeiros.

(3) – haveres, tralha diversa de que os viajantes, normalmente, se fazem acompanhar.

Lilô, Silô e Tumba, sobreviveram à longa caminhada e estavam já crescidos. Muam Poenha era ainda uma mulher linda que não se deixara vencer pelas fadigas e privações da jornada mas, com temor do repudio dos povos que não deixavam de os flagelar, decidiu atravessar o rio, porque embora as terras do outro lado também fossem do rei do Kongo, o rio era tão largo e as correntes tão fortes que lhe parecia não ser o mesmo o mundo para lá daquela margem que se via ao longe.

 

 

(Tocador itinerante de Kissandje – Huambo, década de 60 do século XX – foto do autor)

 

Este outro mundo era o N'Goio, uma espécie de condado dependente mas afastado do reino do Kongo. Tão diferente era que Muam foi recebida pela população com calorosas manifestações de afecto e carinho, e tal foi o acolhimento que o chefe maior – Mirimbi Pucuta – a quis tomar como esposa, acabando com as desditas da princesa.

Deste casamento nasceram mais dois filhos, Moe Panzo e Moe Pucuta. Tendo chegado notícias destes acontecidos ao rei do Kongo que, apesar dos pesares, não eliminara a sua irmã dos pensamentos. Com as novidades confirmadas, apressou-se a mandar emissários credenciados a Muam, oferecendo-lhe, por desanexação do seu vasto reino, o N'Goio a Lilô, o reino de Cacongo a Silô e a Tumba presenteava-o com o reino de Loango, que começava onde é hoje uma terra chamada Ponta Negra e ia para além de Tchibanga e Mossaka.

Lilô e Tumba tomaram conta dos seus domínios, mas como no dia marcado para a coroação Silô estivesse doente, e as regras “dos mais velhos” não permitissem que fosse investida neste estado físico, a coroa foi parar ao primogénito de Muam Poenha e Mirimbi Putuca – Moe Panzo.

E foi assim que se formou o reino de N'Goio, de que Moe Panzo, filho de Muam Poenha, foi o primeiro Mongoio (rei), ao qual se seguiram outros dez mongoios que, com mais ou menos sorte, mais ou menos desventuras, foram governando um país belo e de abundâncias.

Aqui acaba a história que eu sei, de Muam Poenha , princesa bonita de amores arrebatados. Mas, se como diz o povo a sua descendência são bocados dela, posso contar um pedacinho mais dos seus filhos e dos seus netos. Mas um naco só, que a história é da Poenha.

Estes mongoios, se não asseguraram a plena felicidade do seu povo, nem se colocaram à margem das sangrentas e conturbadas altercações que afligiam os potentados seus vizinhos, soberam manter a estrutura política e social do Estado e preservaram os usos e costumes do seu povo. Uns foram guerreiros, outros foram poltrões; uns foram sábios, outros medíocres; uns foram foliões, outros sisudos; uns foram cruéis, outros generosos. Foram como todos os soberanos de outras linhagens, em várias latitudes, que muitos povos suportaram com estoicismo e/ou com alguma fúria. Mas um deles chegou-se mesmo à santidade. Dos seus milagres conservaram-se inúmeras histórias, passadas ao longo do tempo à maneira africana, pela tradição oral.

 


Chamava-se o moço N'Zingo (será coincidência?), filho do mongoio Moe Benci Luemba, e que espantou toda a gente começando a falar no exacto dia em que nasceu. Embora tenha vindo ao mundo com a dentição já completa, vivia sem comer nem beber. Era um menino tão extraordinário que a sua gente cedo o entendeu por santo e, claro, fizeram dele mártir, como mandam os manuais da formação de santos. Mas santo era, com certeza, pois oferecia chuva a quem lha pedia, fazia-a parar quando errava na medida e vinha água demais.

(Kisandje angolano pertencente à colecção de arte africana do autor, fotografia de Tiago Chabert)

Desta história de Muam Poenha e do N'Goio, apesar dos românticos embelezamentos dos factos reais, acrescentados ao longo de gerações, fica a maneira como foi mantida uma linha hierárquica de nobreza que chegou até aos nossos dias cheia de dignidade, cuja essência paira melancolicamente nos olhos dos aristocratas de Cabinda.

O regime aristocrático do reino do Kongo e consequentemente do de N'Goio, o seu sistema monárquico e a dignidade real foram, com certeza, muito sólidos de convicções, estrutura social e orgulho, para que tenham atravessado tão longo período de altercações político-sociais (do sistema colonial à guerra civil e à luta separatista do Enclave) sem que, até hoje, os descendentes dos grandes do N'Goio tenham perdido a sua herança de dignidade, de posição hierárquica e de aristocracia tão evidentes entre as gentes de Cabinda. Poderemos concluir que o N'Goio, teoricamente, ainda existe.

O processo de constituição da nobreza do N'Goio é similar à das aristocracias das nações europeias até ao liberalismo, fundamentando-se em serviços à pátria e ao rei e compreendendo vários graus de dignidade, intimamente ligados à governação e ao lustro do reino. Assim, em torno do rei e constituindo uma espécie de corte real, havia um conselheiro privativo, o Funcico , o Capita ou chefe de protocolo, o ajudante do monarca ou primeiro-ministro designado por Mongovo , um mestre de cerimónias com o título de Tebriatica , um tesoureiro denominado Sumano e muitos mais. Se juntarmos a tantos títulos, mais de uma dúzia de ministros, todos escolhidos entre os aristocratas, podemos avaliar a sua força e a extensão.

 

Destes nobres, o mais notável foi o Mongovo Manuel Puna, a que o rei D. Luís I fez barão de Cabinda, em pagamento da fidelidade deste povo quando a Conferência de Berlim desapossou Portugal das terras do Congo, a norte do rio Zaire.

Foram, na realidade, os cabindas que salvaram para Portugal, no conturbado período entre a Conferência de Berlim e o Ultimatum inglês que terminou com os sonhos cor-de-rosa de um mapa de costa a costa, este pedaço de chão desgarrado das terras de Angola, a que se chamou Enclave de Cabinda.

Os grandes da Europa conduzidos pela política inglesa, repartiam entre si a geografia do Continente, sem se preocuparem com as nações africanas nem com direitos adquiridos por outros povos (seja através de tratados, seja de descoberta e ocupações mais antigas). Cegos pela inconsciência e estupidez da política de então, dividiram aleatoriamente nações, povos e reinos africanos, sem outras considerações para além dos seus alarves interesses.

, os príncipes e fidalgos do N'Goio, informados do que se passava na Conferência de Berlim, entregaram ao comandante da corveta Rainha de Portugal, um requerimento pedindo o protectorado de Portugal:

«... pedirmos para fazermos e concordarmos num tratado pelo qual fiquemos sob o protectorado de Portugal, tornando-nos, de facto, súbditos da coroa portuguesa, como já o éramos por hábitos e ralações de amizade. E, portanto, sendo da nossa inteira, livre e plena vontade, que de futuro entremos no domínio da coroa portuguesa...»

A petição ia assinada pelos maiores do reino, incluindo os nobres do Conselho de Regência, Ibiala Mambona, a princesa Maria Simbo Mambuco, Manuel José Puna¹ e outros altos dignatários.

Este documente e o consequente tratado, ainda em vigor, foram assinados dias depois em Simulambuco. Não sei se mais algum povo colonizador poderá exibir algum documento semelhante mesmo que, como Portugal, não o tenha honrado.

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(1) – ancestral de Miguel N'Zau Puna, que o primeiro Secretário Geral da UNITA e Comandante da Zona II.

Kimpa Vita (Dona Beatriz de Congo)

O grande reino do Kongo estendia-se por ambas as margens do rio Zaire, cobrindo a maior parte da região norte de Angola e o sudoeste da República Democrática do Congo até Bandundu e Kananga. Era um dos maiores e mais poderosos estados da costa ocidental de África, mais de trezentos anos antes desta nossa história.

Os historiadores ainda hoje continuam intrigados com o facto de, inversamente ao que aconteceu noutras regiões do continente, os primeiros contactos com os europeus recém chegados – no caso os portugueses, como em tudo o que era África desconhecida – ao invés de resultarem na destruição do reino do Kongo, foram pacíficos e vantajosos para ambos os lados. Os contactos iniciados em 1482, deram lugar a um longo período de amizade e de progresso.

 

(Adaptado do desenho de José de Moura – 1944 - in Outras Terras Outras Gentes, 1º Volume - Henrique Galvão)

Quando em 1491 os portugueses chegaram à capital, M'banza Kongo ou M'Banji-a-Ekongo, o manikongo (rei) da época, Muene-Muzinga-a-Cuum, pediu para ser baptizado e recebeu o nome do rei de Portugal, D. João. Mais tarde, por volta de 1507, o seu segundo filho, M'benza-a- -Nzinga, quando se tornou manikongo Afonso, tentou transformar completamente o Kongo num reino cristão, pelo que construiu igrejas, mudou o nome da capital de para S. Salvador e procurou, a todo o custo, “europeizar” o seu povo. Tinha o desejo de desenvolver de modo pacífico a sua terra, à custa de um enxerto da cultura do pequeno reino ibérico e correspondendo--se amiúde com o monarca D. Manuel I de Portugal, a quem tratava por meu irmão . Em contrapartida, Manuel alude a Afonso I do Kongo, em precisas instruções dadas a um seu representante em terras de África, como “ um rei a quem temos mui grande amor e que estimamos por sua virtude, como ele merece ”.

A história da deterioração das relações entre o rei do Kongo e os portugueses, considerada uma tragédia, é um conjunto de erros e de posições estremadas de parte a parte. Por um lado o manikongo confundiu o cristianismo com o poder, tomando decisões politicamente menos acertadas, por outro, a ambição da alcateia de negreiros de São Tomé combinados com traficantes instalados na costa e a intermediação de alguns missionários, incrementavam de forma crescente o comércio de escravos.

A condição de escravo já era conhecida no Kongo muito antes da chegada dos portugueses, embora sob a forma de uma certa servidão, a maioria das vezes temporária, em resultado da punição de crimes, por pagamento de dívidas ou pela captura de inimigos no decorrer de actos bélicos. Mas o que acontece é que Afonso não demorou a percebesse as vantagens que poderia auferir com a venda de escravos aos europeus, que deles necessitavam para as pujantes colónias do Novo Mundo e, entre os próprios clérigos, alguns revelaram-se destituídos de grande vocação missionária, muito mais talhados para preencher o papel de activos comerciantes de gente.

Para manter um fornecimento regular, Afonso I fez guerra às nações vizinhas, sobretudo ao reino do N'Dongo, capturando grande número de prisioneiros que eram posteriormente vendidos para a costa. Estas guerras continuaram mesmo depois do seu reinado e em 1556, as forças do filho de Afonso, o manikongo Diogo, foram derrotadas tendo este perdido a vida durante os combates. O seu sucessor governou um reino tão enfraquecido que os jaga conseguiram derrotá-lo deixando o Kongo em escombros, no meio dos quais os sucessores de Afonso presidiam ao arremedo de uma corte europeia.

Da situação caótica vivida nos fins do século XVII, chegam-nos ecos através do relato de um padre capuchinho, Lourent de Lucques, que em 1701 escrevia:

As notícias provenientes do Congo são cada vez piores e as inimizades entre as casas reais estão a dividir o país cada vez mais. De momento contam-se quatro reis no Congo. Há também dois grão-duques em Mamba; três grão-duques em Ovampo; dois grão-duques de Batta e quatro marqueses em Enhcus. A autoridade de cada um deles é cada vez mais fraca e estão a destruir-se mutuamente, com grandes guerras entre eles. Todos querem ser chefes. Lançam ataques contra o território dos outros de modo a roubar e a vender os seus prisioneiros .”

São Salvador de Congo entra em ruína e a população começava a abandonar a capital. No entanto, no meio de tanta adversidade ocorreu um inesperado e insólito facto.

Como sempre acontece, é o povo quem mais se ressente com as consequências do declínio e anseia por dias melhores, pelos tempos de Afonso, filho de João. Muitos estão convencidos que um renascimento da fé cristã faria voltar os dias felizes do tempo da chegada dos primeiros portugueses, resultando daí um rápido alastrar de um certo fanatismo religioso, com o aparecimento de profetizas e profetas que anunciam visões e revelações, misturando religião, crenças e política. Uma mulher tinha visto a Virgem Maria, que lhe comunicara a sua irritação pelo que vinha acontecendo no Kongo, um jovem proclamava que Deus puniria o povo se a cidade de S. Salvador não fosse reconstruída rapidamente.

Uma mulher chamada Ma-Futa, chegou mesmo a declarar que possuía a cabeça de Cristo, desfigurada pela perversidade dos homens – concluiu-se que não passava de uma pedra do rio Ambriz. De outra vez, Ma-Futa teve uma visão da Virgem Maria e soube das catástrofes e desastres que ocorreriam se o manikongo não recuperasse a cidade. A rainha convenceu-se dos poderes de cura e adivinhação de Ma-Futa e espalhou-se o boato de que esta era uma santa. Quando os caridosos missionários da fé a quiseram levar a julgamento por bruxaria, o manikongo protegeu-a, impondo a sua autoridade.

Todos estes acontecimentos conduziram a um novo fervor religioso que havia de empolgar todo o Kongo e ao surgimento de uma mulher que tentaria o renascimento nacional, através da sua própria interpretação da fé cristã.

Kimpa Vita, seu primeiro nome, surge e vive neste contexto. De origem nobre, da aristocracia Bacongo, sacerdotisa do culto de Marinda, habituada aos meandros do poder e às intrigas da elite governante, deve ter tido consciência do malogro desta classe e, ao mesmo tempo, observado com perspicácia a forma como alguém, como Ma-Futa, influía eficazmente nos espíritos e nos acontecimentos. E tomou a decisão de assim fazer, na qualidade de D. Beatriz.

Como quis revelar mais tarde, começou tudo durante um longo período de doença em que esteve às portas da morte e lhe apareceu S. António. Não havia nada de muito extraordinário na escolha do santo – era um santo português, muito reverenciado por missionários e colonos nos reinos do Kongo e N'Dongo – a diferença residia no facto de não se tratar de um santo “ branco ”.

O Santo António que apareceu a D. Beatriz assumiu o aspecto de um dos seus irmãos, aglutinando numa mesma pessoa a religião estrangeira e uma personalidade africana. Estava mesmo à medida do que D. Beatriz desejava para a restauração de um reino como romanticamente se acreditava que fora o de Afonso I.

(Estatueta de S. António, em pau-preto, atribuída aos primeiros anos de cristianismo no Congo)

À semelhança de muitos místicos em todo o mundo e em todas as épocas, renunciou à coisas materiais. Chegou mesmo a imitar a morte de Cristo – os seus seguidores convenceram-se de que morrera numa sexta-feira, subindo aos céus para advogar a causa do seu povo e ressuscitou no sábado seguinte. A sua mensagem política era simples: o Kongo devia ressurgir, renascer e o aparato religioso de que se rodeou ia de acordo ao imaginário da sua gente. Foi fácil ser aceite

 

de imediato por quase todos que ouviam a sua voz.

( Ruínas da Sé do Congo , in “O Occidente” 5º ano, vol. V. n.º 118, de 01/04/1882, p. 77 – desenho de Manuel Monterroso e gravura de Caetano Alberto)

Kimpa Vita acreditava, com toda a força da alma, que S. Salvador devia regressar aos tempos gloriosos em que fora “a cidade dos sinos” e estabeleceu-se na capital por volta do ano de 1704, reconhecida como guia religiosa e dirigente política. O capuchinho Bernardo Gallo desenhou o seu retrato vestida de verde e de cabeça coroada, e Laurent de Lucques conta-nos dela: “ Esta jovem tem cerca de vinte e dois anos de idade. É elegante e possui feições correctas. Externamente dá a sensação de ser muito devota. Fala com gravidade e parece pesar cada palavra. Prevê o futuro e disse, entre outras coisas, que o Dia do Julgamento está muito próximo .”

Esta mulher era tão reverenciada em S. Salvador que os homens de alta estirpe colocavam as suas capas como toalha de mesa para que ela se servisse. Para onde quer que se deslocasse, era precedida por um grupo de nobres que limpava o caminho à sua frente.

O maior sonho de D. Beatriz era criar uma igreja africana com as histórias tradicionais da Bíblia e na qual o Kongo fosse a Terra Santa. Cristo teria nascido em S. Salvador e os fundadores do cristianismo eram africanos. Não copiava os europeus como o manikongo e os nobres tinham feito, considerando mais importante insistir na diferença dos povos bantu. Os brancos teriam sido feitos originariamente de uma pedra macia, enquanto os pretos provinham na sua essência, de uma fogueira.

Em menos de dois anos, esta jovem criou uma igreja com o seu próprio dogma. O âmago da sua crença poderia hoje considerar-se um conceito muito avançado de “negritude” ou “consciência negra”, ou seja, um reconhecimento do valor da experiência africana. Talvez por isso voltou ao traje e aos costumes tradicional.

A mensagem cristã fora adaptada no Kongo, no início das Descobertas, para dar ao manikongo o poder da Europa, o que manifestamente não chegou a acontecer. D. Beatriz retomou a mesma mensagem, mas transformando-a de modo a devolver o poder ao povo. Anunciou a chegada de um novo período áureo para os crentes sinceros, logo após a reconstrução de S. Salvador, o regresso da população e o ambiente propício à satisfação de todas as necessidades.

A alteração ou adaptação mais significativa do cristianismo foi a autorização da poligamia, o que por oposição a este sistema, levou ao isolamento dos missionários europeus em relação à cultura bakongo. Dona Beatriz, não era no entanto uma libertina, pois todas as outras regras eram rigorosamente observadas, procurando disciplinar o povo e fortalecer o país. Escusado será sublinhar que os missionários portugueses se opunham ferozmente a ela, ainda que a considerassem antoniana, em consequência das suas visões do santo.

Inicialmente pouco ou nada poderam fazer porque, como nos diz Bernardo de Gallo, ela era extraordinariamente bem sucedida: “ Aconteceu que S. Salvador foi rapidamente povoado, porque alguns para lá se encaminharam para adorar a pretensa santa, outros para ver a reconstrução da cidade, muitos para visitar amigos, alguns atraídos pelo desejo de recuperar a saúde através de um milagre e outros ainda motivados por ambições políticas. Desta forma, o falso santo tornou-se o restaurador, o dirigente e senhor do Congo .”

Aos olhos dos seus seguidores, D. Beatriz tinha adquirido um tal poder divino, que quando ela passava até as árvores derrubadas se voltavam a erguer.

Não obstante tudo isto, foi ela própria derrubada. Os europeus estavam decididos a eliminá-la e, quando chegou a oportunidade, provocaram-lhe uma queda foi vertiginosa.

A autoridade do manikongo, à época Pedro IV, era diminuta. Um grupo importante de elementos da hierarquia tinha mesmo nomeado um outro manikongo que se lhe opunha e Pedro IV dependia do auxilio dos portugueses para se manter no poder, estando por isso mesmo, a sofrer forte pressão dos missionários para suprimir D. Beatriz e o seu movimento antoniano. Mesmo persuadido pelos capuchinhos de que ela apoiava o seu rival, Pedro só tomou posição contra D. Beatriz quando esta enfraqueceu a sua posição.

Desejosa de repetir uma história cristã de vertente africana, deu á luz um filho e afirmou que continuava virgem. Apesar do terror que impunha, esta história enfraqueceu a fé popular depositada nela. Ainda que com receio da reacção do povo, D. Pedro mandou prende-la poucos meses depois do nascimento do filho, corriam os primeiros meses de 1706, com a ideia inicial de a enviar a julgamento, ao bispo de Angola, na esperança de a fazer escapar no longo trajecto até Luanda. Mas os missionários capuchinhos estavam ansiosos e pretendiam um tratamento público para o caso, obrigando Pedro a julgá-la em conselho real. Como era o costuma cristão da época, foi condenada à morte na fogueira.

Laurent de Lucques descreve-nos assim a sua morte: - “ Dois homens com sinetas na mão dirigiram-se para o meio desta grande multidão e fizeram suar os sinos e imediatamente o povo recuo e, no meio do espaço vazio, apareceu o basciamucano, isto é, o juiz. Envergava da cabeça aos pés, um manto negro e na cabeça tinha um chapéu também negro, de um negro tão horrível que eu não supunha que pudesse existir. Os culpados foram levados à sua presença. A jovem, que levava o filho nos braços dava a sensação de estar cheia de medo e receio. Os acusados ficaram sentados no chão, aguardando a sua sentença de morte.

Compreendemos que tinham decidido queimar a criança juntamente com a mãe. Pareceu-nos uma grande crueldade. Apressei-me a falar com o rei para ver se havia alguma possibilidade de a salvar...

O basciamucano fez um grande discurso. O tema principal foi o elogio do rei. Enumerou os seus títulos e apresentou provas do seu interesse pela justiça. Finalmente pronunciou a sentença contra Dona Beatriz, afirmando que sob o falso nome de Santo António enganara o povo com as suas heresias e falsidades. Consequentemente, o rei, seu senhor, e o conselho real condenavam-na a morrer na fogueira. A mulher fez tudo para se desdizer, mas os seus esforços foram vãos. Isto provocou grande tumulto entre a multidão, pelo que nos vimos impossibilitados de prestar qualquer assistência aos dois condenados. Tudo o que podemos acrescentar é que havia um grande monte de lenha para o qual foram atirados, cobriram-nos com outros pedaços de madeira e queimaram-nos vivos. Não satisfeitos com isto, na manhã seguinte vieram alguns homens que queimaram os ossos restantes e reduziram tudo a cinza .”

A morte de D. Beatriz foi uma vitória parcial que, ao contrário de terminar com a “heresia”, deu início a uma nova fase do antonionismo. Os crentes asseguravam que no preciso lugar onde fora queimada apareceram dois profundos poços, cada um deles com uma brilhante estrela no interior. As relíquias encontradas no meio da cinza, no local do sacrifício, transformaram-se em objecto de grande reverência.

De forma impossível de prever, o objectivo de fortalecer o seu país sob a direcção de um dirigente poderoso, que tinha motivado Dona Beatriz desde o início do movimento, veio a verificar-se. Dois anos depois da sua morte, D. Pedro IV viu-se na necessidade de organizar um exército para combater os antonionistas. Ironicamente, este facto trouxe-lhe novas forças e prestígio, o que lhe permitiu ver-se livre dos seus inimigos e unificar o país. Não há, no entanto e ao contrário do que se passou com a rainha Nzinga, provas de que a fama de D. Beatriz tenha servido de influência libertadora.

Elizabete Jambeca

O Cuanhama, como o geral dos territórios para além do Cunene, era absolutamente desconhecido dos europeus antes da segunda metade do século XIX ou, pelo menos, não se conhecem registos dessas paragens austrais, anteriores aquela época. Quando Lopes de Lima publica a sua “Monografia de Angola”, em 1844, os conhecimentos sobre as terras do Sul não passavam além do Humbe.

Só em 1850, os funantes j Bernardino J. Brochado e A. F. Nogueira, fazem as primeiras visitas documentadas de europeus ao Cuanhama, no tempo do soba Nahmadi, e dão as primeiras notícias sobre os povos Ambós, guerreiros de alguma crueldade – Cuamatos, Evales, Dombondolas, Cafimas e os mais numerosos e temidos a que chamavam Cuanhamas. Segundo o Padre Keiling, em “Quarenta Anos de África”, toda a Ovambolândia fazia parte de um grande lago, do qual nos restou apenas o temporário Etosha, na Namíbia. Depois de seco este grande lago, ficou em seu lugar uma vasta e ligeira depressão de terras salgadas, alagadiças na época das chuvas, para onde convergiram em grande profusão muitas espécies herbívoras, atrás das quais vieram os caçadores que exclamavam: tuende ko nhama – “vamos à carne”, donde, o nome Cuanhama.

A bibliografia internacional costuma atribuir estes primeiros relatos sobre o território e as gentes do sudoeste de Angola a L. Magyar, oficial da marinha austro-húngara, que em finais da década de oitenta passou pela região em viagem de exploração, mas o facto é que o austríaco foi hospede dos dois negociantes portugueses que entretanto, um e outro, tinham fixado residência no Humbe em localizações distintas.

Mas esta apetência pelos largos espaços bordejados de espinheiras e ponteados de acácias e mutiatis, só veio mesmo a colocar-se quanto já decorriam tímidas tentativas de instalação de uma feitoria na Huíla e aportavam a Moçâmedes os primeiros luso-brasileiros vindos da cidade do Recife, Pernambuco. Foi por essa época que, como coisa tenebrosa, surgiu o nome do Cuanhama, o nome de um povo que conseguia colocar mais de vinte mil homens em armas, um exército com quadros e guerreiros altamente treinados e hierarquizados, com que os europeus teriam que se haver se quisessem penetrar aqueles sertões. Povo combativo, com hegemonia sobre os seus vizinhos, exibiam a organização militar mais perfeita de todas as muitas etnias de Angola.

A unidade táctica dos Cuanhamas era a etanga k , que agrupava cem homens. Seis etangas juntas constituíam uma guerra , comandada por um lenga, chefe militar e conselheiro do soberano em tempo de paz. Um conjunto de guerras formava uma ohita, que funcionava como que um corpo de exército, viajando sob a protecção do ondiai, homem de virtudes e de magias poderosas l . Os seus chefes militares combatiam a cavalo, comandando incursões por todo o Cunene, numa zona tão vasta que abrangia o Humbe, os Gambos, Jau, Chela, Mulongo e Capelongo, chegando mesmo em 1899, durante o reinado de Weyulu, a estender as suas razias até Quipungo e Caconda. Estas hostes regressam aos eumbos, quase sempre, em marchas triunfais e carregando fartos espólios de escravos, gado e mulheres.

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j – Vendedores ambulantes que transportavam a mais variada mercadoria em carros de bois e, por conta própria ou como comissionistas, percorriam os sertões de povoação em povoação, fazendo o seu negócio.

k – Henrique Galvão, em “ Outras Terras Outras Gentes ” denomina esta unidade táctica como tanga, o que está errado, talvez por ter compreendido mal a fonética do termo.

l – José Ribeiro da Costa Júnior, “ Brancos e Pretos na Ocupação do Sul de Angola ”, 2ª Ed., 1963.

Em 1904, o capitão Manuel Gomes da Costa, comandante do posto do Humbe, que mais tarde veio a fazer o golpe militar que catapulta o ditador Oliveira Salazar para a governação de Portugal, escrevia de Luanda em preocupado e vernáculo discurso de caserna a Aires de Ornelas*, oficial de serviço em Lisboa e seu camarada de armas nas saudosas campanhas orientais de Mouzinho de Albuquerque, a propósito da situação no Sul de Angola: “ Uma porrada que apanhemos lá em baixo e teremos o Cuanhama em marcha para Norte a raziar à sua vontade. Como evitar isso? Só vindo gente daí. Mandá-la-ão? Não creio que a mandem senão à última hora, quando as coisas já estiverem num período agudíssimo .”

A Nahmadi sucedeu Weyulu ya Hedimbi e foi durante o reinado deste grande chefe que nasce, num eumbo perto de Naulila e de uma das famílias da nobreza tradicional, Elizabete Jambeca.

A Weyulu sucedeu Nande, e a este sucedeu Mandune Ndemufayo , senhor dos Cuanhamas, soba dos sobas, hamba de N'Giva, cruel e inteligente, guerreiro bárbaro e corajoso, chefe supremo da Nação Ovambo.


(in Subsídios para a História de Angola [ actualizado ] – José Ribeiro da Costa Júnior, Lisboa 1963)

Entretanto, em função das deliberações emanadas da Conferência de Berlim e da indefinição da fronteira Sul que divide Angola do Sudoeste Africano, a Namíbia dos actuais mapas, os Alemães exerciam forte pressão sobre o território dos Ambós, que começavam a fartar-se de serem tratados como intrusos na terra dos seus ancestrais. As posições radicalizaram-se quando os germânicos decidiram instalar as suas hortas em Okahandja, a sudoeste de Omaruru, exactamente onde repousavam, à sombra de frondosas árvores sagradas, os restos mortais dos antigos chefes. Foi então decidida a luta e um ataque cirúrgico aos Alemães, com instruções precisas para que fossem feitas baixas entre os homens, deixando de fora da peleja as mulheres e as crianças, tendo sido colhidos por esta explosão de ódio, cento e vinte e três alemães.

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(*) – Aires de Ornelas e Vasconcelos foi Chefe de Estado Maior de Mousinho de Albuquerque e mais tarde Ministro da Marinha e do Ultramar do governo de João Franco, o último do reinado de D. Carlos.

A retaliação não se fez esperar e os germânicos, comandados pelo general Lothar von Trotha, apresentaram-se em força no território, apetrechados de modernas espingardas, metralhadoras e dos terríveis e inovadores canhões Krupp de tiro rápido. Apostados em eliminar qualquer hipótese de futura rebelião, promoveram a razia dos eumbos j , perseguiram fugitivos, mataram e incendiaram tudo à sua passagem e, no fim do pesadelo, von Trotha vangloriava-se de que haviam abatido sessenta e cinco mil “ gentios ”.

Estes incidentes causaram ódios duradouros e indiscriminados contra os invasores europeus, tidos no seu conjunto como uma só etnia antagónica, independentemente de serem eles Portugueses, Alemães, Ingleses ou Bóeres, e foi nesta onda de ânimos incendiados que dois funantes foram assassinados, causando grande consternação e muitos protestos entre a comunidade portuguesa. Logo se levantaram exaltados clamores de vingança contra os Cuanhamas e os seus malditos hábitos de rapina, numa precipitada análise e absoluta falta de conhecimento concreto dos factos ocorridos, pois a responsabilidade daquelas mortes era dos Cuamato.

Contra a corrente de indignação geral dos seus compatriotas, é ainda Gomes da Costa, ainda chefe do conselho do Humbe, que apresenta uma versão muito despachada e pitoresca dos acontecimentos, bem na linha do seu temperamento e capacidade de análise das ocorrências. No que respeita a um dos casos, relata para ao governador de Moçâmedes o seguinte: “ É facto que houve há tempos o assassínio dum branco, mas nem foi no Cuanhama, nem para o roubar; este negociante, não se reputando satisfeito com o gado que os pretos lhe deram em troca das fazendas vendidas, foi-se ao curral do chefe da povoação e tentou tirar de lá o gado que lhe pareceu; os pretos, irritados, saltaram-lhe em cima e mataram-no (...). O que os pretos neste caso fizeram ao branco faria qualquer saloio dos arredores de Lisboa em idênticas circunstâncias, e ainda ninguém por isso se lembrou de declarar guerra ao soba da Porcalhota ou ao lenga de Loures.

Por altura destes acontecimentos, e totalmente alheia a estas indacas k , a vida de Elizabete Jambeca corria simples e plena de felicidade. Cumprindo as obrigações inerentes a uma criança no início da adolescência, depois de comido o matete l matinal, deixava a embala na companhia da sua mãe e tias a caminho do arimo m familiar.

Falava o seu dialecto e inglês.

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j – povoações de uma família e aparentados.

k – questões, conflitos, “ makas ”.

l – papas de farinha de milho, massango ou massambala (noutras regiões denominada pirão ou, se de farinha de mandioca, pirão).

m – lavra ou horta de milho, massango ( Pennisetum spicatum ) e/ou massambala ( Andropogos sorghum ), feijão frade ( Vigna unguiculata ), batata doce também conhecida por cará ( Ipomea batatas ), mandioca ( Monihot utilissima ), abóboras, amendoim ( Arachis hypogea ) e outras culturas de auto-subsistência alimentar.

O sueco Thomas Ericson, era caçador-comerciante, acompanhado de numeroso séquito de auxiliares herero e barulhenta matilha de cães, deambulando pela Ovambolândia e Damaralândia, onde encontrou ouro de aluvião e passou a ser garimpeiro.

Casou-se com um sueco de nome Thomas Ericson que, na região de Damaralândia, explorava uma mina de ouro. A filha desta união, Maria Eugénia Ericson, nasceu no Cuanhama. Maria Eugénia casou com Alexandre Augusto Miranda e a sua filha, Maria Teresa, Mãe da Carmito, já nasceu na Chibia, Província da Huíla.

Elizabete Jambeca continuou a viver na sua embala, no Cuanhama. Quando os seus dias chegaram ao fim, os seus parentes cuanhamas pretenderam realizar o seu funeral seguindo os ritos do seu povo.

O ritual funerário dos Cuanhamas tem o envolvimento de seitas secretas na sua gestão: tudo é realizado num secretismo absoluto e participam somente homens: quimbandas (m.q. médicos), feiticeiros e mágicos e ainda elementos da própria corte do defunto. É sacrificado um boi soba, de cor branca, considerado sagrado. Duas crianças eram enterradas vivas, uma de cada lado do soberano. No caso de Elizabete Jambeca, soberana. (Posteriormente, adoptou-se o costume de, em vez das crianças, se sacrificarem dois escravos, elementos de outra tribo, capturados em combate, e escolhidos para esse efeito.)

O soberano é envolto na pele do boi, ainda ensanguentada, na posição sentado, virado para Nascente, como se se mantivesse no seu trono, perpetuando a reinação! (Esta palavra tem duas vertentes: a política e a circense. Dentro dos contornos da própria negritude, tocam-se e completam-se.) As duas crianças ou os dois escravos iluminam o caminho... a promessa de renascer todos os dias!

A sua filha, porém, não concordou que se sacrificassem as crianças e contactou as autoridades portuguesas. Consequentemente, o seu funeral realizou-se segundo os costumes portugueses e teve honras militares. Elizabete Jambeca foi sepultada com a espada e Grande Cruz de Guerra que lhe tinha sido concedida pelo governo português, pelos serviços prestados na campanha do Sul de Angola.

No dia seguinte, porém, as duas crianças apareceram afogadas, num pequeno charco de água... Dizia-se que, afinal, elas não poderiam ter sobrevivido porque o seu destino já tinha sido traçado...

Uma bela história, dirão uns... estranha, pelos seus ritos, dirão outros... não tão estranha se nos recordarmos de costumes idênticos de outros povos, os do Egipto, por exemplo...

Num ponto, todavia, todos concordaremos: Elizabete Jambeca é indubitavelmente uma figura de Angola. Ela lutou e contribuiu para que as fronteiras do seu país se mantivessem intactas.

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Referências Bibliográficas e pesquisa de Aida Saiago

- Site Do Alto do Sombreiro" - www.saiago.com e "ANGOLA" - www.angola-saiago.net

 

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Maria do Carmo (125)

  ( em construção)